Enio Moraes Júnior*

 

Jamais esqueci os cadernos de receita de dona Joene, minha mãe. Como nunca fui lá um grande cozinheiro, acho que a melhor coisa que aprendi nesses cadernos foi a admirar as receitas.
Embora para cada cozinheiro o bolo vá resultar de um ou de outro jeito – como dizem os mestres cuca, tudo depende muito “da mão” de quem cozinha –, as receitas tendem sempre a conduzir a resultados satisfatórios.
Além disso, me encantava perceber que a confiança trazida pela experiência passava a dispensar a receita ali ao lado. Mas enquanto isso não acontece, sempre é bom começar bolos e textos por receitas. E quanto mais simples elas forem, melhor.
Leite, ovos, manteiga, açúcar e farinha de trigo. Normalmente esses ingredientes não podem faltar na hora de se fazer um bom bolo. Mas para se fazer um texto, especialmente um bom texto argumentativo, quais seriam os ingredientes indispensáveis?
Se para o bolo, os ingredientes vêm da mercearia, no texto, eles vêm da alma. Eu sempre digo que gosto de ler sobretudo porque gosto de escrever. E é verdade.
A leitura é a minha motivação para fazer o que mais gosto: escrever. E quando falo de leitura não falo apenas de ler livros, jornais ou sites. Falo de ler a vida, de ler gente e de ler lugares. Ao observador atento, tudo termina sendo importante.

 

Os ingredientes para um bom texto são as nossas sensações, as nossas subjetividades. Aquilo que somos e aprendemos a ser observando, “lendo” a vida que passa por nós e o nós que passamos por ela.
Para fazer um texto, cada pessoa tem que descobrir qual é a sua fonte de ingredientes e uma boa dica é se perguntar: o que, de fato, me interessa? Os ingredientes da sua razão de viver – e de escrever – estão nesse amálgama de coisas.

Pressuposto e motivação
Ingredientes em mãos, é hora de misturá-los. Em primeiro lugar, trace um roteiro para o seu texto, estabeleça uma sequência lógica com começo, meio e fim. Elabore tudo isso como se fosse uma receita de bolo do que você quer escrever e siga essa receita.

 

Comece anotando seu pressuposto, a afirmação inicial que motivou o seu interesse por escrever o texto. Depois, anote os argumentos – e, se for o caso, os contra-argumentos – do seu texto. Ou seja: os elementos que você vai utilizar para defender ou ponderar em relação ao seu pressuposto.

 

Em segundo lugar, comece a preencher esse roteiro. Se for o caso, utilize autores para subsidiar seus pontos de vista. Procure dar atenção à clareza e à coerência do que escreve. Ser claro significa que as pessoas devem entender o que você quer dizer, ser coerente significa que o que você diz tem que ter lógica, sentido, e estar bem argumentado.

 

Lembre-se que alguns textos tendem a ser mais objetivos. É o caso dos memorandos, dos relatórios e de algumas reportagens jornalísticas para páginas de Economia ou Política. Outros são mais livres. No caso da imprensa, incluem-se aqui o jornalismo opinativo e o jornalismo literário. Os artigos e os perfis, por exemplo, permitem esse tipo de liberdade.

 

Em terceiro lugar, recheie o seu texto com o seu estilo. É hora de colocar em prática o seu toque pessoal; características de escritor que você desenvolveu de forma peculiar, que você percebe que emergem de você. Estilo é personalidade! Alguns bolos têm recheios mais simples, como o noticiário econômico ou político. Outros têm recheios mais adocicados, ao gosto de grande parte dos artigos e das crônicas.
O recheio é o que dá o toque de cada um ao bolo. É ele que deixa, lá dentro do bolo, a surpresa, o toque de cada mestre cuca. Há recheios que são apenas caldas de açúcar. Outros, podem ser chantilly ou cremes de chocolate.

 

Em quarto lugar, prepare a cobertura. Ela é a “cara” final do bolo. No jornalismo, diríamos que se trata da edição do texto. É hora de titular, subtitular e, se for o caso, escolher fotos e legendas. Enfim, é hora de arrumar tudo, de dar ao texto o seu aspecto final.
Todo esse trabalho deverá obedecer aos critérios e às pretensões do cozinheiro. A cobertura poderá ser uma simples calda de açúcar ou uma irresistível calda de chocolate. Assim, um texto mais objetivo terá um título e um subtítulo mais seco. Uma escrita mais livre e literária terá uma “cara” mais jocosa ou criativa.
Por fim, releia o material e corte excessos! Assim como dona Joene, use a espátula e tire aquele monte de doce que escorre e mela a bandeja. Pronto! Babe à vontade, delicie-se com a sua obra. E não esqueça o café. Todo texto é um bolo para comer com café!

 

*Jornalista, doutor em Ciências da Comunicação pela USP e professor de redação e linguagem jornalística dos cursos de Jornalismo das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU) e da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPPM), em São Paulo.

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