Ou se não fosse o The Cure, eu estaria ouvindo música ruim? Fiquei em dúvida entre os dois títulos, mas o primeiro realmente SIGNIFICA muito mais. Costumo fazer a brincadeira com a segunda opção, pois a banda de Robert Smith mudou o rumo de muita coisa.

 

A historinha é a seguinte: aos 13 anos, quando estava lá pela sétima série, o colégio organizou um prêmio de música para os alunos. Entre as concorrentes estavam uma garotinha tocando flauta e outra menina, daquelas mais malucas, fazendo um cover de “I’m Too Sexy”, do Right Said Fred (sim, se sua adolescência foi durante os anos 90 não se faça de desentendido fingindo que não se lembra dos fortinhos de regata e sua dança sexy).

 

E eis que surgem meus colegas de classe com a Maria (a tão famosa – na 7ªB – professora de violão particular deles) tocando uma música chamada “Boys Don’t Cry”. Sim, ela tocava na MTV (e como era bom aquele começo da MTV), mas aquela cena me marcou demais. Aqueles meninos metidos a grungezinhos, todos de cabelo comprido, mandando ver naquele rock dançante de letra triste sobre meninos que não choram! Isso no palco do teatro do colégio (de freiras)… era mesmo algo realmente novo!

 

Aquilo mudou tudo. Insisti com meus pais que PRECISAVA aprender a tocar violão. Fui até a Maria, pessoa que toda a 7ªB acreditava ser uma deusa do rock, com calça de couro e tudo, mas tinha mesmo cara de freira, e iniciei as aulas. Lembro que em uma das primeiras aulas, em meio a muitas músicas da Legião Urbana, pedi para ela me passar uma música do Frente, chamada “Bizarre Love Triangle” que tocava loucamente nas rádios paulistanas. Na aula seguinte ela apareceu com a partitura assinada por outra banda, chamada New Order. E me contou o segredo: a música original era desta banda de Manchester. Depois deste dia a Maria sempre aparecia com outras novidades gravadas em fitinhas K7 (é, juventude, cabiam 30 minutos de cada lado), como The Smiths, Depeche Mode, U2, The Clash e muitos outros. A cada fita muitas descobertas e a identificação com essas bandas.

 

Vinte anos depois posso dizer que esse episódio mudou quase tudo. E no último sábado, no show deles em São Paulo, com o marido e rodeada de amigos queridos ouvindo “Lovesong”, “Pictures of You”, “Just Like Heaven”, “Love Cats”, “Close To Me” e tantas outras músicas que me fizeram dançar muitas vezes, chorar em outras, não teve como não pensar nisso.

 

Se não fosse The Cure não teria conhecido mais de 80% dos amigos que tenho hoje, porque pra quem ama música, nunca haverá assunto melhor, seja na faculdade ou numa balada. Não teria morado em Londres (incluindo aí um tour por Manchester, terra de onde saíram boa parte das minhas bandas TOP 5)  e lá descoberto mais referências interessantes. Provavelmente não teria as tatuagens que tenho. E não teria conhecido o meu tão amado marido.

 

Nossa primeira conversa em uma sala de pós-graduação só teve início porque o meu caderno estampava a capa do álbum “If are you feeling sinister”, do Belle & Sebastian e ele puxou assunto… Claro que eu, solteira, pensei “Yes! Um homem de bom gosto nesta sala”. A primeira vez que saímos foi para comprar um ingresso para o show do Interpol e lá se vão mais de cinco anos desde este dia, hoje com nossos livros e CDs dividindo espaço no mesmo apartamento.

 

Se não fosse o The Cure, talvez não tivesse despertado interesse pela geração beatnik, não teria feito trabalho na faculdade sobre o Cinema Novo, não teria me apaixonado por Albert Camus e nem saberia que a música “Killing an Arab” (do The Cure, claro) é uma referência ao livro “O Estrangeiro” do Camus. Entre tantas coisas que não seria-teria-gostaria. Ouvir música ruim só seria uma delas.

 

Curioso que no clipe, os meninos que tocam são quase iguais meus colegas de classe, só um pouquinho mais novos:

 

 

*Ouvinte de música compulsiva, tentei tocar alguns instrumentos sem sucesso e descobri que bom mesmo é ouvir, curtir e trabalhar com música. Na Casé Assessoria tive o prazer de trabalhar com dois grandes artistas, “TôTatiando” espetáculo musical finíssimo de Zélia Duncan baseado na obra de Luiz Tatit e com o talentoso coletivo 5 a Seco. Que venham muitos outros!

 

Share →

One Response to Se não fosse The Cure eu não seria eu. – Por Marina Castro Alves*

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>