Por muito tempo, o debate sobre a inclusão da população negra no Brasil ficou limitado ao tema das ações afirmativas na educação e na legislação contra a discriminação interpessoal. Essas discussões, que foram importantes no início da última década, agora dão espaço a um novo debate: o papel das grandes empresas e do sistema financeiro na promoção da igualdade de oportunidades.

 

No último dia 17 de maio, por exemplo, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) organizou um encontro no auditório do Banco Itaú BBA, em São Paulo, o qual reuniu acadêmicos, ativistas, gestores de instituições de crédito e investidores para se discutir sobre o tema da diversidade nos negócios. O evento contou, também, com o Vice-Presidente do Small Business Administration, (o SEBRAE dos EUA), Eugene Cornell, que compartilhou com os participantes os cases de sucesso da instituição, a qual tem apostado em micro e pequenos empreendedores, especialmente aqueles oriundos de grupos socialmente excluídos.

 

Nos Estados Unidos, o Small Business Administration (SBA) atua não apenas oferecendo treinamento, mas também, como fundo garantidor de operações de crédito para os negócios criados por negros e mulheres, além de oferecer taxas mais amigáveis para que estes empreendimentos sejam bem sucedidos. A lógica por trás dessas ações está no fato de que esses empreendedores, normalmente, atuam em nichos de mercados ainda não alcançados por empreendedores tradicionais. Muitos desses negócios, vale lembrar, possuem alto impacto social e capacidade de escala.

 

Aqui no Brasil, o tema vem ganhando força, sobretudo nos últimos cinco anos, com o surgimento de várias startups gerenciadas por afrodescendentes, como a Kilombu, (diretório de negócios negros); loja Kumasi (marketplace de moda étnica); AfrôBox, (clube de assinaturas para produtos de beleza negra) e Saladorama, (franquia de saladas em favelas).  Além disso, só neste ano, três projetos de cartões pré-pagos estão sendo lançados com foco nesse público, como o Cartão Olodum (Bahia), o Cufa Card (RJ) e o Cartão Black da Afro Business (SP). Em comum, esses empreendimentos estão provando que o público afro não quer apenas mostrar seu potencial de consumo, mas também gerar riqueza.

 

Apesar disso, os empreendedores negros queixam-se de discriminação racial dentro do sistema financeiro e no acesso ao crédito. Segundo o Dr. Marcelo Paixão, professor da Universidade do Texas, que lançou recentemente o estudo “Acesso ao Microcrédito por Empreendedores Afrodescendentes”, a convite do BID, 37% dos donos de negócios negros têm seus pedidos de crédito totalmente negados. Um dos motivos, seria a falta de confiança dos agentes financeiros em relação a pessoas negras, muitas vezes de maneira inconsciente. Isso se dá pelo fato desses grupos tradicionalmente não possuírem um patrimônio elevado e pelo racismo institucional, que faz com que pessoas negras e moradores de periferias sejam percebidos como pouco confiáveis, na hora em que apresentam seus planos de negócios para bancos públicos, privados ou investidores. Porém, “sem crédito não há capitalismo”, lembra o pesquisador, que acredita no poder dos pequenos negócios para reduzir as desigualdades sociais brasileiras, lembrando, ainda, que o poder do mercado nos EUA vem justamente dos pequenos e médios empreendimentos, ao levantarem recursos nos mercados para alavancarem suas ideias, como é o caso do Vale do Silício.

 

Uma das críticas do movimento afro-empreendedor ao “racismo econômico” é que há bastante “ação afirmativa” para grandes empresas quando tomam empréstimos com taxas generosas de instituições públicas como o BNDES, mas há pouca atenção para os pequenos empreendedores, que tentam driblar o racismo cotidiano no mercado de trabalho e que muitas vezes não possuem nenhum tipo de apoio para seus empreendimentos. O Brasil, apesar da crise, ainda está entre as 10 maiores economias do mundo, mesmo em um ambiente hostil aos empreendimentos comunitários e de segmentos discriminados. Se houvesse mais inclusão, certamente estaríamos em uma posição melhor e com melhores indicadores sociais.

Os ativistas chamam a atenção das grandes empresas, no sentido de que elas também precisam se comprometer com o tema da diversidade, não apenas em sua publicidade, mas, como por exemplo, no treinamento e na compra de produtos oriundos dessas empresas formadas por afrodescendentes.

 

Nos EUA, a chamada “Supply Chain Diversity “, ou diversidade na cadeia produtiva, gera bilhões de dólares para os segmentos minoritários e retorno de imagem para as empresas. Um bom exemplo é o grupo Billion Dollar Roundtable (www.billiondollarroundtable.org), que reúne grandes multinacionais como Toyota, Apple, P&G e Ford, que já alcançaram a meta de comprar, pelo menos, um bilhão de dólares da mão de negros, mulheres e demais segmentos historicamente excluídos. Esperamos que essa tendência chegue por aqui, gerando riqueza e colocando o Brasil na rota do crescimento novamente.

 

Paulo Rogério Nunes, 36, é publicitário, consultor afiliado ao Berkman Klein Center da Universidade Harvard, co-fundador do Vale do Dendê e consultor e palestrante em Marketing Multicultural na Casé Fala.

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