A velhice é um tema que provoca arrepios. Palavra carregada de inquietação e angústia ela também representa uma realidade difícil de capturar. Quando é que se fica velho? Aos 60, 65 ou 70 anos? Nada mais flutuante do que os contornos da velhice, vista como um conjunto complexo fisiológico-psicológico e social. Temos a idade de nossas artérias, de nosso coração, de nosso comportamento? Ou bem, é no olhar dos outros que enxergamos nossa idade? Enfim, a única certeza é que desde que nascemos começamos a envelhecer. Mas o fazemos em velocidades diferentes. O modo de vida, o ambiente, a situação social aceleram ou retardam a evolução bio-picológica e entramos na velhice em idades muito diferentes.

 

Digo tudo isso, pois o Brasil está envelhecendo. Uma boa razão para começarmos a nos aproximar do tema, é a mudança de relação com nossos membros da Terceira Idade. Antes marginais, eles hoje são a espécie mais comum de cidadãos. O idoso e a idosa em boa forma, sábios e experientes, cada vez mais fazem parte da publicidade: oferecem máquinas de lavar, passeios turísticos, seguros de vida e outros produtos. A medicina se debruça sobre os problemas específicos desta clientela, os economistas se inquietam frente ao aumento de aposentadorias e os demógrafos se desolam com uma pirâmide de idades invertida – mais velhos, menos jovens – que aponta, há médio prazo, para um Brasil cheio de rugas. O Estado também vai tomando consciência da amplitude da situação e, com a lentidão habitual, começando a pensar nela. E os historiadores também

Um deles, George Minois, fez um estudo interessante sobre os idosos na sociedade inca, do Peru. Ele descobriu informações interessantes que aqui reproduzo. O Estado inca que funcionava como espécie de grande família do chefe inca, procurou atribuir um papel preciso aos idosos. Sociedade extremamente organizada, cada um tinha aí o seu papel como as formigas num formigueiro. Antes do século XII, os indígenas matavam e comiam os velhos. Mas a partir da conquista do chefe Manco Capac, no século XII uma nova organização foi estabelecida, oferecendo aos idosos toda a segurança. Recenseados a cada cinco anos, eles era, repartidos por idade: dos 50 aos 70, dos 70 aos 80 e mais, demonstrando que a longevidade era normal. Havia a classe dos que “andavam com facilidade”, dos “desdentados” e dos que só queriam comer e dormir. Registros da igreja católica, em certos vilarejos, a partir de 1840, comprovam que existia uma forte proporção de centenários que fumavam, bebiam e tinham uma surpreendente atividade sexual.

 

Numa sociedade sem escrita, os idosos tinham o papel de arquivos vivos. Eram conselheiros de soberanos e cada tribo enviava ao chefe inca um conselho informal, a fim de guiá-lo nas suas decisões. As mulheres idosas tinham o papel de médicas, enfermeiras e parteiras. Eram também sacerdotisas no tempo do Sol, em Cuzco.  Os idosos do povo eram cuidados pela comunidade. Os lavradores trabalhavam suas terras gratuitamente e lhes levavam alimentos. Recebiam também grãos dos armazéns do chefe inca. Um tributo especial, na forma de corvéia, ou seja, de trabalho obrigatório, consistia em fabricar roupas e sapatos para os idosos. Que estavam também livres de pagarem impostos a partir dos 50 anos. Uma sociedade assim foi apresentada como utópica aos europeus, tendo um efeito importante na imaginação dos homens e mulheres entre os séculos XVI e XVIII. Nelas, cada um tinha um papel que era exercido em beneficio da comunidade. Não é a toa que os europeus acreditavam que a flor da juventude, aquela mesma que Deus teria plantado no paraíso terrestre, se esconderia nas montanhas andinas. Exatamente entre o Peru e o Equador.

Mary Del Priore

Historiadora

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